16 de Junho de 2012

A dança contemporânea rompe com as molduras clássicas. Não tem técnicas específicas nem um “corpo ideal”. Inova nas temáticas e na relação com os espaços e outras artes.

A dança contemporânea surge nos anos 60 nos EUA. Nasce no seguimento da dança moderna, na medida em que pretende também romper com os moldes rígidos da dança clássica.

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Uma arte multimédia

A dança contemporânea é também profícua em relações com outras artes, desde o vídeo, às artes plásticas, à música ou à fotografia. A vertente da videodança é um dos géneros híbridos que surgiu nos últimos anos.

“A dança moderna, em relação à clássica, foi uma forma de libertação do bailarino, de expressar mais os sentimentos das pessoas e não apenas histórias. A dança contemporânea surge também nesse contexto”, explica Catarina Marques, antiga bailarina.

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 Apresentação no Granteatro de Cáceres - XXIII DanzaMaratón - 2014

 

Apesar do forte paralelismo, a dança contemporânea diferencia-se da moderna por não obedecer a técnicas. A dança moderna tem diferentes técnicas ligadas a vários coreógrafos, como Martha Graham, Doris Humphrey ou José Limon. “A contemporânea não tem essas técnicas, é a liberdade de expressão do bailarino”, diz Catarina Marques. Não há mecanismos definidos, há antes processos e formas de criação. Parte-se de métodos “desenvolvidos por bailarinos modernos, como improvisação, contacto-improvisação” para uma construção personalizada da criação.

 

O bailarino contemporâneo tem um papel mais autónomo e interventivo na coreografia. “Antes, o coreógrafo dava um movimento ao bailarino e ele decorava-o e trabalhava-o. Agora dão temas, estímulos – que podem ser objectos, músicas – para o bailarino criar”. O coreógrafo produz a partir do discurso do intérprete.

Apesar da ruptura com os artifícios do ballet, a linguagem própria da dança contemporânea não deixa de integrar referências clássicas. “Um bom bailarino contemporâneo tem de ter por base a dança clássica, a técnica, para depois se puder libertar”, salienta Catarina Marques. Uma coreografia contemporânea não tem a harmonia estética de uma clássica. Mas os movimentos “têm primeiro de ser limpos para depois poderem ser sujos intencionalmente”.

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GranTeatro de Cáceres

 

O corpo na dança contemporânea

Como a dança contemporânea não se define em técnicas ou movimentos específicos, emerge uma nova noção de corporalidade. Busca um sentido mais experimental, menos estratificado.

“Na dança contemporânea não existe um corpo ideal, como na dança clássica. É um corpo multicultural, que tem várias referências”, explica Joclécio Azevedo, coreógrafo, bailarino e director do Núcleo de Experimentação Coreográfica do Porto (NEC).

Este corpo multicultural é um espelho do contemporâneo, do contexto globalizado em que a dança contemporânea se move. “Relaciona vários temas da sociedade de hoje”, afirma Catarina Marques. “Muitos bailarinos falam do racismo” – Bill T. Jones é o exemplo maior – “da guerra … é fruto do seu tempo”.

A dança contemporânea explora uma paleta de procedimentos corporais distintos e transversais. “É um corpo que tem formações diversas. Eu, enquanto bailarino, tenho formação de teatro”, diz Joclécio. O bailarino tem autonomia para traçar e desenvolver o seu próprio vocabulário, pois “não existe um corpo, existem corpos”. Na dança contemporânea, a ideia de corpo é “colocada em questão”: “o corpo não está só dependente da mobilidade, da elasticidade; mas também de características de ordem psicológica, antropológica, cultural”.

O corpo não se apresenta como o único veículo de comunicação – todo o contexto temático que arquitecta a criação encerra uma sintaxe. O corpo é quem instiga o discurso simbólico, “é o catalisador da emoção, do pensamento, da atitude política, da sexualidade”, esclarece Joclécio Azevedo. E é esse conjunto de elementos que “acaba por tocar em diferentes aspectos da nossa vida contemporânea”, acrescenta o coreógrafo.

Uma nova relação com os espaços

Um dos elementos diferenciadores da dança contemporânea é o diálogo que estabelece com os espaços. A coreografia pode saltar de um palco para lugares menos convencionais. “No projecto ‘Sub-18‘ fiz um espectáculo numa ETAR”, exemplifica Catarina Marques. “Aí faz-se uma coreografia sobre o espaço. Temos de ver o que ele sugere, se o movimento é mais claustrofóbico, mais amplo”, diz.

“Mas também pode ser simplesmente pegar numa coreografia e pô-la num espaço, só que ele vai condicioná-la. Há uma necessidade na dança contemporânea de o bailarino se adaptar ao espaço”.

 

publicado por ADAP às 16:59

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